27 Outubro, 2008

ACN: Entrevistando o Responsável 2

Você leu, participou e comentou a primeira entrevista do Tiago, o pai do ACN. E conforme prometido, trago agora a segunda parte da entrevista, onde o foco das perguntas foi um pouco diferente das perguntas da primeira parte. Se na anterior o foco foi o próprio ACN, a segunda parte visa trazer informações do mundo editorial do RPG no Brasil. Se conseguir estas informações das editoras é sempre um martírio, o mesmo não pode ser dito do Tiago, que abriu seu "Undergound Haven" (trocadilho horrível!) e não se eximiu de responder NADA!

Com vocês, a segunda parte da entrevista:

1. Tiago, conte-nos como foi o processo de publicação do ACN? Quais as etapas que você ultrapassou até conseguir ver o livro pronto nas mãos?

Antes do projeto ACN, tudo o que eu sabia fazer era escrever (e programar, afinal, me formei nisso). Desde então, eu tive que aprender a revisar, diagramar, desenhar (precisa melhorar), editar imagens, programar a página da Underground Haven, montar uma empresa, registrá-la na Biblioteca Nacional, pesquisar preços em gráficas, registrar o ISBN dos livros, enviar os livros para classificação no Ministério da Justiça, registrar marcas e, finalmente, vender.

A cada processo, tive que aprender muita coisa, e em geral tive de fazer tudo sozinho, contando com ajuda ocasional de amigos em algumas etapas (em especial, para obter as imagens contidas nos livros).

Atualmente, porém, o maior desafio é conquistar o público e convencê-lo a comprar os livros.

2. Quais a maior dificuldade que você encontrou? Alguma coisa durante o processo o fez repensar alguns aspectos do livro ou abrir mão de algumas coisas para ter outras?

As etapas mais chatas do processo foram as relacionadas às exigências do governo. Eu quis fazer o processo de maneira legal, e isso incorreu num aumento enorme de custos (cerca de 10% a mais do valor previsto originalmente, e continua subindo...), além de ter de esperar os longos e ineficientes processos governamentais (até hoje, quatro meses após fazer o pedido, ainda estou aguardando o alvará da prefeitura).

Quanto às etapas criativas, o problema de aprender tudo na marra é que a todo instante você olha para trás e vê que poderia ter feito melhor. Eu ainda estou melhorando meus métodos de escrita, revisão e diagramação, e há algumas coisas que me arrependo no resultado final dos livros. Dizem que todo escritor odeia reler seus trabalhos antigos, e eu confirmo. Contudo, tenho orgulho deles porque me dediquei ao máximo e não tinha como realmente fazer melhor.

3. Você escreveu, produziu e certamente participou de todas as etapas de criação e publicação. Entretanto houve a necessidade de contratar algum serviço adicional?

Necessidade, sim. Possibilidade, não. Os recursos eram (e ainda são) muito limitados. Esse é um projeto bancado mais por perseverança do que dinheiro.

4. Houve procura de alguma editora, estúdio ou parceiro para a publicação dos livros antes de você partir para a iniciativa própria? Como foi (ou não) a receptividade dos editores?

Lá vai um segredo que pouquíssima gente sabe:
Lá por 2001-2002, a editora Mitsukai me procurou para produzir Demônio: O Preço do Poder e Anjo: A Salvação para o cenário de deles, o Mundo de Revelações, que usava o sistema DAEMON. Também queriam que eu escrevesse um livro, chamado Sociedades Secretas (na produção do qual eu concebi um conceito que mais tarde seria transplantado para o ACN), e um romance (As Coletâneas de Meinhard, que eu acabei adaptando para o ACN). Eles até lançaram um livro para esse cenário, chamado Imortal, mas que não teve minha participação. Chegamos a assinar contrato, mas a Mitsukai fechou e nunca houve nenhum resultado.

Minha experiência com a Mitsukai me mostrou que material próprio dificilmente é publicado como você deseja. Algumas das alterações propostas por eles faziam os jogos ficarem quase irreconhecíveis (Demônio quase se chamou “Possessores”, e queriam cortar o material de Anjo pela metade), além de deixar o autor à mercê da editora, aguardando uma publicação que pode nunca sair. Fiquei com minhas obras paradas por dois anos, esperando o contrato vencer, para poder retomar aquilo que era meu por direito.

Quando decidi que iria publicar meu trabalho, eu quis tomar as rédeas do processo, e obviamente nenhum editor permitiria isso. Em adição, pouquíssimas editoras mexem com RPG no Brasil, e as que mexem tem seus próprios planos criativos. Foi isso que me motivou a bancar o processo e transformar a Underground Haven numa “editora”.

5. Como funciona o processo de envio do material para a avaliação do Ministério da Justiça? Em termos de gastos, duração, acesso aos profissionais que fazem a avaliação. Enfim, como funciona esse "troço"?

Felizmente, essa etapa não exigiu qualquer pagamento adicional. O custo é apenas o de envio mesmo, e então você aguarda o processo, tendo de ler o Diário Oficial da União todos os dias, até sair a classificação dos livros. No meu caso, foram cerca de 30 dias (enviei os livros para eles no dia 06/07, por Sedex; o resultado saiu no dia 08/08).

Na minha opinião, apesar de apoiar a idéia de classificação etária do conteúdo, eu não acho que a forma como ela está sendo feita atualmente é justa. A classificação considera que o RPG é “diversão pública” como os jogos de computador, cinema ou a televisão, que são meios de comunicação gráficos e com cenas pré-produzidas e reprisadas. Embora o conteúdo do livro possa ser julgado, ele é inanimado e descritivo, então muito da “parte gráfica” do livro está na imaginação do leitor. Em adição, o conteúdo de uma seção de jogo vai variar completamente de um grupo para outro, é algo que não está nas mãos nem no controle do produtor do jogo.

Também questiono os métodos usados pelos avaliadores. Os livros de ACN foram produzidos tendo em mente uma classificação de 14, talvez 16, anos. Recebeu 18 anos e uma tarja preta no lugar. Para se ter idéia, segundo o Manual da Classificação Indicativa do Ministério da Justiça, para ter classificação de 18 anos, eu precisaria veicular nudez total, sexo explícito, apologia às drogas, violência explícita ou conteúdo de mais de 50% de livro voltado a violência ou sexo.

Inclusive, no Livro de Regras, a classificação apontou entre os motivos a presença de nudez. Não há imagens de nudez no livro, e o único momento em que algo “nu” é citado é neste trecho: “O monstro-lobo então caiu de joelhos, e sua forma se reduziu a um jovem nu (...)”. Apenas isso, nenhuma descrição mais gráfica, nenhuma cena mais chocante, nenhuma alusão a órgãos sexuais. Se, num filme, mostrar as costas de um personagem que supostamente está “nu” não rende uma menção da classificação, eu não considero que usar a palavra “nu” uma vez em 152 páginas de conteúdo seja motivo para tal.

6. Como foi o processo de escolha do projeto gráfico? Como foi a escolha dos materiais dos livros, da gráfica, do papel, os acabamentos e etc? Imagino que você não tivesse experiência neste campo antes do ACN então como foi montar um livro sem saber dos processos inerentes à editoriação e os termos técnicos de impressão gráfica?

Eu não tinha experiência alguma, mas sempre que não tinha muita noção do que estava fazendo, eu me baseava em livros de grandes editoras. O projeto gráfico foi feito por mim mesmo, usando o software Scribus (código aberto, gratuito) e tentando emular a aparência de livros que conhecia.

Quanto aos materiais. Eu especificava o que eu queria para o resultado final, e a gráfica me passava recomendações e custos. Também me baseei em amostras de material produzido pela gráfica. Avaliei as propostas, e felizmente descobri que um primo meu trabalhava numa gráfica local. Inclusive, foi essa gráfica que imprimiu e montou o livro (não porque meu primo trabalhava nela, mas porque apresentou o orçamento que produzia a melhor qualidade em menor preço).

7. E sobre o formato tamanho A4? Alguma razão especial? Posso lhe dizer que em um aspecto ele foi positivo. Na minha estante os dois livros se destacam! Nenhum fica mais alto que os dois.

O formato A4 foi meio que resultado da minha inexperiência. Resolvi fazer as coisas usando um formato familiar.

8. Quanto foi investido no projeto? Qual é a expectativa de retorno financeiro?

Foram quatro anos de economias no processo. O custo de produção foi de R$ 17.200,00 para 500 unidades de cada livro. Porém, contando custos para montar a empresa, registrar marcas e ISBN e cumprir requisitos legais, o investimento foi de cerca de R$ 22.000,00 (e contando...).

Pelos números calculados, a UH sobrevive, sem prejuízos, vendendo 20 livros por mês, mas isso apenas significa que ela eventualmente não terá recursos para renovar tiragens. Para dar lucro, é preciso vender 70 livros por mês (ou 35 conjuntos de 1 Livro de Regras + 1 Desbravadores do Oculto).

9. E a escolha da tiragem? Foi feito algum estudo ou foi na razão das possibilidades financeiras?

As decisões foram tomadas em razão das possibilidades financeiras.

10. Houve procura de distribuidores, revendedores ou lojas para a venda do ACN? Como foi a receptividade? E as dificuldades que você encontrou?

A princípio eu quis verificar como seriam as vendas pela internet, a fim de manter o empreendimento pequeno e gerenciável, além de ter um preço baixo nos livros. Note que, se passar por revenda, o preço dos livros aumentará em cerca de 30% para o consumidor final, o que é um aumento considerável. Este valor é calculado já imaginando um custo reduzido para o revendedor e não inclui o frete para enviar os produtos às lojas. O preço aumentaria ainda mais se passasse por uma distribuidora.

Em suma, eu ainda estou avaliando como conduzir a revenda, e como ela ocorrerá.

11. Em relação as vendas? Quanto da tiragem inicial dos livros será necessária para o projeto se pagar?

Ao preço que está na Underground Haven, o projeto se paga ao vender 60% das unidades. Se for considerar o preço para revendedores, que seria menor, será preciso vender 77% da tiragem. Esses percentuais consideram o imposto pago no ato da venda, mas não os custos de manutenção mensais da UH, então quanto mais tempo demorar a vender a tiragem, maior a quantidade de livros que precisam ser vendidos para que o projeto se pague.

12. Finalizando! Com a experiência adquirida, o que você pode deixar de conselho no que se fazer e o que não se fazer no processo de publicação de um livro de RPG no Brasil?

Quando comecei esta empreitada, que eu sabia que seria arriscada, eu tomei a decisão de que não gastaria nada a mais do que estava disposto a perder. Não me endividei no processo, e mesmo que falhe, ainda terei bastante orgulho do que fiz. Olhando todos os números acima, dá de ver que é uma jogada arriscada, mas eu a fiz porque escrever é uma atividade que gosto. Eu confio no meu talento e espero que ele seja reconhecido, com todas as qualidades e defeitos inerentes a ele. Esses últimos 12 meses de desafio foram muito mais plenos do que os quatro anos que tive antes, quando eu tinha um salário certo.

A quem deseja publicar seu material: escreva muito, sempre questione seu trabalho e procure saber como melhorar. Veja o que as pessoas gostam. Use a internet! Publique seu trabalho nela e consiga outras pessoas para avaliá-lo. Saiba receber críticas. Procure os interessados em seu trabalho. Avalie os recursos que você tem à sua disposição, para nunca dar um salto maior do que você consegue. E acima de tudo: não faça algo se você não estiver disposto a perder, porque a perda é sempre uma possibilidade real.

E lembrem-se que não é preciso abrir uma empresa e vender livros para ser reconhecido. Eu estava mais do que satisfeito em escrever a velha UH, que chegava a ter 10.000 visitas por mês, e o projeto ACN não tinha inicialmente fins lucrativos. O único motivo para ter mudado foi o fato de que eu sempre adorei criar e escrever e, para continuar a fazê-lo, a atividade teve de pagar a si mesma.